Coordenadas dos Amigos Contatados

Coordenadas dos Amigos Contatados
Esta é a relação oficial e final dos amigos encontrados, e seus pares, visando a Festa do COPA 50 Anos Depois

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVIADORES DA TOBIAS BARRETO

A Rua Tobias Barreto acolheu em diversas épocas quatro aviadores. O mais velho de todos, mas não seu mais antigo morador, foi o brigadeiro do ar ou coronel aviador Zenith Borba do Campo, que ao passar para a reserva da FAB adquiriu aquele bangalô branco que fica no alto, no início de quem sobe a rua pela calçada da esquerda. Acho que isso aconteceu em meados da década de 1960, pois quando fui transferido para a Base Aérea de Canoas em 1970 seu retrato já integrava a galeria de ex-comandantes daquela base. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando ingressei na FAB, ele dela já se despedira.
Outro foi o coronel aviador Medeiros cujos pais moravam em um sobrado cinza revestido de mica, situado na calçada da esquerda de quem sobe a rua, a meio caminho entre a Avenida Bento Gonçalves e a Praça Esperanto. Por volta de 1957 ou 1958, lembro-me de haver assistido a espetaculares voos rasantes sobre ela de um monomotor North American T-6, por ele pilotado; exibicionismo típico de aspirante ou segundo tenente aviador. Somente viemos a travar contato pessoal em 1985 em Recife, quando eu lá servia no Comando Aéreo Regional como tenente coronel recém-promovido e ele fora designado para dirigir o Parque de Material Aeronáutico lá sediado, já coronel maduro, quase brigadeiro. Não sei que tola inibição me impediu de revelar nossa origem comum. Pouco depois, deixei Recife, a FAB, e a oportunidade passou. Mais tarde, soube que ele falecera precocemente.
Na Tobias do Meio, ainda na calçada da esquerda, um dos filhos do casal Kalfelz, o Mário, era cadete do ar no final dos anos 1950. Certa vez, na época de suas férias escolares, ele foi visitar seu amigo Paulo Prestes, irmão de meu vizinho e amigo Antonio Celso, o Tonho. Estávamos todos no terraço da garagem da casa dos Prestes – Ah, os magníficos terraços abertos da Tobias Barreto! – quando um C-47 sobrevoou a rua a baixa altura. Sob uma das asas via-se a inscrição USAF. Tendo sido informado que eu estava inoculado pelo “aerococus”, Mário resolveu sabatinar-me. Perguntou que tipo de avião era aquele. “Um C-47!”, respondi de pronto. A segunda pergunta foi mais complexa: “Qual o significado da inscrição USAF?”. “United States American Force”, afirmei convicto de estar impressionando meu inquiridor.  “United States Air Force”, corrigiu Mario Kalfelz.
Voltamos a nos encontrar anos mais tarde em Brasília: ele coronel, eu major aviador. Mario apresentava deformação grave nas mãos, resultado de queimaduras sofridas em grave acidente aéreo ocorrido em Natal muitos anos antes. Naquela ocasião, o bimotor que ele e um companheiro conduziam colidiu com o terreno antes da pista da Base Aérea em meio a uma chuva torrencial em noite fechada. O avião pegou fogo. Alguns ocupantes perderam a vida. Mário sobreviveu, mas suas mãos ficaram para sempre marcadas pela tragédia.
Ainda na calçada da esquerda, agora na Tobias de Cima, um menino desde cedo sonhava em voar. Nem Zenith, nem Medeiros, nem Mario Kalfelz tiveram nada a ver com isso, mas sim meu tio Telmo, irmão de minha mãe, que na longínqua e pequena São Luiz Gonzaga do final da década de 1940 também sonhara em voar; sonho jamais concretizado por força das circunstâncias. Foi ele quem me conduziu ao portal mágico da aviação, permitindo que brincasse com seus aeromodelos, pelos quais tinha carinhos e cuidados especiais. Apesar de criança, nunca os danifiquei. Quando voei pela primeira vez em 1949, como passageiro de um DC-3 da Varig, viajando de Porto Alegre para Santo Ângelo (São Luiz não recebia voos da Varig), eu tinha quatro anos de idade e decidi que seria aviador. E assim foi.
Em 1970, quando eu liderava esquadrilhas de North American T-6 em voos noturnos sobre Porto Alegre, treinando aspirantes aviadores recém-formados, sempre dava um jeito de sobrevoar minha querida rua, fato inusitado que levou o saudoso Seu Gastão Vigevani a indagar de meus pais, seu vizinhos, se algo de anormal estaria ocorrendo – eram os anos de chumbo – para esquadrilhas estarem a sobrevoar seguidamente a cidade à noite. Que nada, Seu Gastão! Era apenas o menino Carlos Ari, trazendo vaga-lumes coloridos para iluminar o céu de sua infância...

Autor: Carlos Ari Germano da Silva