A Rua Tobias Barreto acolheu em diversas épocas quatro aviadores. O mais velho de todos, mas não seu mais antigo morador, foi o brigadeiro do ar ou coronel aviador Zenith Borba do Campo, que ao passar para a reserva da FAB adquiriu aquele bangalô branco que fica no alto, no início de quem sobe a rua pela calçada da esquerda. Acho que isso aconteceu em meados da década de 1960, pois quando fui transferido para a Base Aérea de Canoas em 1970 seu retrato já integrava a galeria de ex-comandantes daquela base. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando ingressei na FAB, ele dela já se despedira.
Outro foi o coronel aviador Medeiros cujos pais moravam em um sobrado cinza revestido de mica, situado na calçada da esquerda de quem sobe a rua, a meio caminho entre a Avenida Bento Gonçalves e a Praça Esperanto. Por volta de 1957 ou 1958, lembro-me de haver assistido a espetaculares voos rasantes sobre ela de um monomotor North American T-6, por ele pilotado; exibicionismo típico de aspirante ou segundo tenente aviador. Somente viemos a travar contato pessoal em 1985 em Recife, quando eu lá servia no Comando Aéreo Regional como tenente coronel recém-promovido e ele fora designado para dirigir o Parque de Material Aeronáutico lá sediado, já coronel maduro, quase brigadeiro. Não sei que tola inibição me impediu de revelar nossa origem comum. Pouco depois, deixei Recife, a FAB, e a oportunidade passou. Mais tarde, soube que ele falecera precocemente.
Outro foi o coronel aviador Medeiros cujos pais moravam em um sobrado cinza revestido de mica, situado na calçada da esquerda de quem sobe a rua, a meio caminho entre a Avenida Bento Gonçalves e a Praça Esperanto. Por volta de 1957 ou 1958, lembro-me de haver assistido a espetaculares voos rasantes sobre ela de um monomotor North American T-6, por ele pilotado; exibicionismo típico de aspirante ou segundo tenente aviador. Somente viemos a travar contato pessoal em 1985 em Recife, quando eu lá servia no Comando Aéreo Regional como tenente coronel recém-promovido e ele fora designado para dirigir o Parque de Material Aeronáutico lá sediado, já coronel maduro, quase brigadeiro. Não sei que tola inibição me impediu de revelar nossa origem comum. Pouco depois, deixei Recife, a FAB, e a oportunidade passou. Mais tarde, soube que ele falecera precocemente.
Na Tobias do Meio, ainda na calçada da esquerda, um dos filhos do casal Kalfelz, o Mário, era cadete do ar no final dos anos 1950. Certa vez, na época de suas férias escolares, ele foi visitar seu amigo Paulo Prestes, irmão de meu vizinho e amigo Antonio Celso, o Tonho. Estávamos todos no terraço da garagem da casa dos Prestes – Ah, os magníficos terraços abertos da Tobias Barreto! – quando um C-47 sobrevoou a rua a baixa altura. Sob uma das asas via-se a inscrição USAF. Tendo sido informado que eu estava inoculado pelo “aerococus”, Mário resolveu sabatinar-me. Perguntou que tipo de avião era aquele. “Um C-47!”, respondi de pronto. A segunda pergunta foi mais complexa: “Qual o significado da inscrição USAF?”. “United States American Force”, afirmei convicto de estar impressionando meu inquiridor. “United States Air Force”, corrigiu Mario Kalfelz.
Voltamos a nos encontrar anos mais tarde em Brasília: ele coronel, eu major aviador. Mario apresentava deformação grave nas mãos, resultado de queimaduras sofridas em grave acidente aéreo ocorrido em Natal muitos anos antes. Naquela ocasião, o bimotor que ele e um companheiro conduziam colidiu com o terreno antes da pista da Base Aérea em meio a uma chuva torrencial em noite fechada. O avião pegou fogo. Alguns ocupantes perderam a vida. Mário sobreviveu, mas suas mãos ficaram para sempre marcadas pela tragédia.
Ainda na calçada da esquerda, agora na Tobias de Cima, um menino desde cedo sonhava em voar. Nem Zenith , nem Medeiros, nem Mario Kalfelz tiveram nada a ver com isso, mas sim meu tio Telmo, irmão de minha mãe, que na longínqua e pequena São Luiz Gonzaga do final da década de 1940 também sonhara em voar; sonho jamais concretizado por força das circunstâncias. Foi ele quem me conduziu ao portal mágico da aviação, permitindo que brincasse com seus aeromodelos, pelos quais tinha carinhos e cuidados especiais. Apesar de criança, nunca os danifiquei. Quando voei pela primeira vez em 1949, como passageiro de um DC-3 da Varig, viajando de Porto Alegre para Santo Ângelo (São Luiz não recebia voos da Varig), eu tinha quatro anos de idade e decidi que seria aviador. E assim foi.
Em 1970, quando eu liderava esquadrilhas de North American T-6 em voos noturnos sobre Porto Alegre, treinando aspirantes aviadores recém-formados, sempre dava um jeito de sobrevoar minha querida rua, fato inusitado que levou o saudoso Seu Gastão Vigevani a indagar de meus pais, seu vizinhos, se algo de anormal estaria ocorrendo – eram os anos de chumbo – para esquadrilhas estarem a sobrevoar seguidamente a cidade à noite. Que nada, Seu Gastão! Era apenas o menino Carlos Ari, trazendo vaga-lumes coloridos para iluminar o céu de sua infância...
Autor: Carlos Ari Germano da Silva
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