Coordenadas dos Amigos Contatados

Coordenadas dos Amigos Contatados
Esta é a relação oficial e final dos amigos encontrados, e seus pares, visando a Festa do COPA 50 Anos Depois
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVIADORES DA TOBIAS BARRETO

A Rua Tobias Barreto acolheu em diversas épocas quatro aviadores. O mais velho de todos, mas não seu mais antigo morador, foi o brigadeiro do ar ou coronel aviador Zenith Borba do Campo, que ao passar para a reserva da FAB adquiriu aquele bangalô branco que fica no alto, no início de quem sobe a rua pela calçada da esquerda. Acho que isso aconteceu em meados da década de 1960, pois quando fui transferido para a Base Aérea de Canoas em 1970 seu retrato já integrava a galeria de ex-comandantes daquela base. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando ingressei na FAB, ele dela já se despedira.
Outro foi o coronel aviador Medeiros cujos pais moravam em um sobrado cinza revestido de mica, situado na calçada da esquerda de quem sobe a rua, a meio caminho entre a Avenida Bento Gonçalves e a Praça Esperanto. Por volta de 1957 ou 1958, lembro-me de haver assistido a espetaculares voos rasantes sobre ela de um monomotor North American T-6, por ele pilotado; exibicionismo típico de aspirante ou segundo tenente aviador. Somente viemos a travar contato pessoal em 1985 em Recife, quando eu lá servia no Comando Aéreo Regional como tenente coronel recém-promovido e ele fora designado para dirigir o Parque de Material Aeronáutico lá sediado, já coronel maduro, quase brigadeiro. Não sei que tola inibição me impediu de revelar nossa origem comum. Pouco depois, deixei Recife, a FAB, e a oportunidade passou. Mais tarde, soube que ele falecera precocemente.
Na Tobias do Meio, ainda na calçada da esquerda, um dos filhos do casal Kalfelz, o Mário, era cadete do ar no final dos anos 1950. Certa vez, na época de suas férias escolares, ele foi visitar seu amigo Paulo Prestes, irmão de meu vizinho e amigo Antonio Celso, o Tonho. Estávamos todos no terraço da garagem da casa dos Prestes – Ah, os magníficos terraços abertos da Tobias Barreto! – quando um C-47 sobrevoou a rua a baixa altura. Sob uma das asas via-se a inscrição USAF. Tendo sido informado que eu estava inoculado pelo “aerococus”, Mário resolveu sabatinar-me. Perguntou que tipo de avião era aquele. “Um C-47!”, respondi de pronto. A segunda pergunta foi mais complexa: “Qual o significado da inscrição USAF?”. “United States American Force”, afirmei convicto de estar impressionando meu inquiridor.  “United States Air Force”, corrigiu Mario Kalfelz.
Voltamos a nos encontrar anos mais tarde em Brasília: ele coronel, eu major aviador. Mario apresentava deformação grave nas mãos, resultado de queimaduras sofridas em grave acidente aéreo ocorrido em Natal muitos anos antes. Naquela ocasião, o bimotor que ele e um companheiro conduziam colidiu com o terreno antes da pista da Base Aérea em meio a uma chuva torrencial em noite fechada. O avião pegou fogo. Alguns ocupantes perderam a vida. Mário sobreviveu, mas suas mãos ficaram para sempre marcadas pela tragédia.
Ainda na calçada da esquerda, agora na Tobias de Cima, um menino desde cedo sonhava em voar. Nem Zenith, nem Medeiros, nem Mario Kalfelz tiveram nada a ver com isso, mas sim meu tio Telmo, irmão de minha mãe, que na longínqua e pequena São Luiz Gonzaga do final da década de 1940 também sonhara em voar; sonho jamais concretizado por força das circunstâncias. Foi ele quem me conduziu ao portal mágico da aviação, permitindo que brincasse com seus aeromodelos, pelos quais tinha carinhos e cuidados especiais. Apesar de criança, nunca os danifiquei. Quando voei pela primeira vez em 1949, como passageiro de um DC-3 da Varig, viajando de Porto Alegre para Santo Ângelo (São Luiz não recebia voos da Varig), eu tinha quatro anos de idade e decidi que seria aviador. E assim foi.
Em 1970, quando eu liderava esquadrilhas de North American T-6 em voos noturnos sobre Porto Alegre, treinando aspirantes aviadores recém-formados, sempre dava um jeito de sobrevoar minha querida rua, fato inusitado que levou o saudoso Seu Gastão Vigevani a indagar de meus pais, seu vizinhos, se algo de anormal estaria ocorrendo – eram os anos de chumbo – para esquadrilhas estarem a sobrevoar seguidamente a cidade à noite. Que nada, Seu Gastão! Era apenas o menino Carlos Ari, trazendo vaga-lumes coloridos para iluminar o céu de sua infância...

Autor: Carlos Ari Germano da Silva

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

EU TIVE UM SONHO

Eu tive um sonho! E esta é a pequena história deste sonho, um sonho tão perfeito que pareceu ter sido realidade. Foi como se o tivesse vivido. Era palpável, vivo, colorido, emocionante ... E por esta razão, gostaria de contá-lo aos meus amigos.
Sonhei que me veio à cabeça a idéia de organizar um grande encontro com todos os amigos da minha infância e adolescência, passada no bairro do Partenon, em Porto Alegre, entre as ruas Paissandu, Tobias Barreto, Machado de Assis, Veríssimo Rosa e suas transversais, além da Avenida Bento Gonçalves, coletor principal de todas essas artérias tão queridas da nossa memória. Em meu sonho, eu claramente vislumbrava as dificuldades que haveria de encontrar na localização dos amigos remanescentes, no contato com eles e na sua aquiescência em participar do meu sonho; e eu precisava de parceiros que me ajudassem a tocar a empreitada; e temia pela receptividade que teria dos amigos contatados. E tudo era um monte de dúvidas ...
Mas no sonho, o sonho começou a tomar corpo! Um contato aqui, um contato ali e consegui juntar um pequeno grupo de amigos, ainda um pouco incrédulos, que de uma forma ou outra aceitaram participar da nossa aventura. E saímos em busca dos nomes dos nossos antigos, através de uma extensa relação que as nossas mentes ainda conseguiram devolver de um passado longínquo. Um encontro com este grupo num restaurante de Porto Alegre e lá selamos o compromisso de atingir o nosso objetivo, juntar os amigos do passado numa festa que chamar-se-ia: “COPA 50 Anos Depois”, em homenagem ao nosso “Clube Olímpico Porto Alegre”, criado naquela época, fonte de muitas das nossas alegrias e promotor de muitos casamentos entre amigos do bairro e fora dele.
E começamos a realizar os contatos com os amigos de cinqüenta anos atrás. E cada novo telefonema era uma nova preocupação sobre como seríamos recebidos; o amigo iria se lembrar de quem estava falando? Estaria ele disposto a participar de algo assim inusitado depois de cinquenta anos passados? E cada novo telefonema era sempre uma alegria renovada pela alegria do próprio interlocutor que não acreditava com quem estava falando; e aderia incondicionalmente ao convite, como se ele próprio estivesse esperando aquele convite, também por muitos anos.
E a lista dos amigos encontrados crescia e os próprios amigos contatados lembravam-se de novos nomes que nos eram repassados e o processo transformou-se numa cadeia que não mais parecia ter fim. No grupo de discussões especialmente criado para a troca de idéias e as discussões entre os amigos, as mensagens voavam em todas as direções trazendo e levando lembranças que há muito se encontravam olvidadas; e era lindo assistir ao entusiasmo de todos, mandando recados ora divertidos, ora evocativos, mas sempre emocionantes. O blog criado para a festa era o veículo de crônicas emocionadas, sobre acontecimentos passados nas décadas de 50 e 60, em que os autores eram, ora assistentes, ora participantes ou protagonistas principais. Criamos também dois álbuns de fotografias. Num deles eram postadas as fotos do passado e do presente, envolvendo os amigos e suas famílias e eram assim identificados por todos, pouco a pouco. No outro álbum, eram postadas pares de fotos: uma tirada na época da nossa juventude e outra atual, colocadas lado a lado. Com isso, os amigos se identificavam mutuamente, pelas fotos antigas, e ficavam conhecendo as suas aparências atuais. Foram muitas fotos maravilhosas enviadas!
Paralelamente, os preparativos para a festa avançavam. O local foi escolhido com muito cuidado de modo a agradar os amigos de cujo gosto nem mais nos lembrávamos, mas também pensando que o custo possivelmente influiria no atendimento aos convites que seriam enviados, pois não havia como prever e conhecer as condições financeiras de pessoas que não eram vistas há tanto tempo. Os mesmos fatores foram considerados quando se procurou o “buffett” e todos os demais itens que deveriam ser arranjados para a realização da tão almejada festa.
Finalmente, a data foi marcada! 18 de setembro do ano de 2010, seria o dia da realização do encontro dos amigos que não se viam há 50 anos. Muito próxima da entrada da primavera, seria como um novo desabrochar de uma amizade que nascera há muito tempo atrás, mas não morrera, quedando adormecida por vários invernos. E os convites foram enviados a todos os amigos que haviam sido localizados; por e-mail para aqueles que o possuíam, pessoalmente para os que não tinham e pelo correio para aqueles que moravam longe. E a cada nova confirmação de participação à festa, uma nova alegria a todos, pois que dela todos tomavam conhecimento e a ela todos aplaudiam. A alegria tomava conta de todos os participantes, que já se organizavam em mesas de acordo com as suas afinidades e preferências. Alguns sugeriam as companhias com receio de que não fossem ser reconhecidos pelos demais após tanto tempo passado, com a timidez típica da adolescência de 50 anos atrás. E o número de participantes crescia e as pessoas não acreditavam que o número final seria um redondo número 100!
A data tão esperada se aproximava e o nervosismo era visivelmente demonstrado nas manifestações da lista de discussões e nas postagens encaminhadas ao blog para publicação. Amigos de última hora, tão esperados, apresentavam-se quando já ninguém mais cria que eles compareceriam; e eram recebidos com uma alegria enorme que era imediatamente correspondida. A festa era uma certeza!
E o seu dia chegou! Eufóricos estávamos nós, da Comissão Organizadora, e mais eufóricos encontravam-se os amigos que dela participariam, antevendo e antegozando o momento maravilhoso em que voltariam a ver os companheiros de tantos tempos passados. Cedo fomos para o local da festa para a tarefa de decorar o salão. Os balões nas cores verde, preto e branco, as cores do COPA, cheios, começaram a se avolumar e logo foram pendurados em pontos estratégicos do grande salão de baile. As faixas e “banners” alusivos ao evento, nas mesmas cores, foram colocados à entrada principal, no saguão e no salão principal, com dizeres que muito bem espelhavam a amizade que perdurou por 50 anos. Os vasinhos de flores foram colocados sobre as mesas de seis lugares, com as cobertas brancas, onde as cadeiras traziam lindos laços brancos de fita. As luzes indiretas multicoloridas, alto-falantes e demais acessórios eram responsabilidade do DJ, já contratado, que faria a alegria da festa com as músicas cuidadosamente escolhidas por nós, representando todo o espírito da nossa época. Preparamos também uma maravilhosa seleção de “clips” com cantores de nossa época, executando as melodias que tantas vezes dançamos nas reuniões dançantes que o COPA organizava. Tudo estava preparado para a grande noite que viria e pudemos ir às nossas casas, para o merecido descanso que antecederia a festa do reencontro.
Chegamos cedo para os preparativos finais, para garantir que nada faltaria à noite memorável ... E dali para a frente, uma espécie de névoa adentrou o salão inteiro cobrindo todo o espaço disponível e o sonho, finalmente, começou a parecer-se muito mais com um sonho do que com a realidade; e as duas coisas se confundiram; e eu já não sabia mais o que era sonho e o que era realidade. Eu ficava, com outros amigos, na entrada do salão, recebendo os convidados que chegavam e nos quais eram imediatamente colocados os crachás, especialmente confeccionados, para identificá-los mutuamente. Outros amigos tratavam de conduzir os convidados às mesas previamente acordadas, sobre as quais eram colocadas pequenas papeletas indicando que aquela já estava reservada ao grupo que chegara primeiro. No sonho, a responsabilidade do mestre de cerimônias fora entregue à minha filha Cláudia, romântica e sentimental, ao extremo desejosa de conhecer, ao vivo, os amigos que tanto e há tanto tempo conhecia das histórias de seus pais. E, no sonho, foi ela que veio, assustada, me contar - ao mesmo tempo em que pedia socorro -, que uma das amigas encontrava-se chorando, inconsolável, à entrada do saguão, emocionada pela constatação imediata da presença de vários amigos antigos. E ao atendê-la, fiquei também empapado pelas suas lágrimas de alegria. Os convidados faziam jogos de adivinhação escondendo os crachás, como se tivessem, subitamente, retrocedido 50 anos no passado. E os abraços e beijos calorosos se sucediam por todos os cantos do salão, as pessoas não acreditando que estavam encontrando amigos de adolescência, que não viam há cinquenta ou mais anos. Uma coleguinha de primário, no velho Grupo Escolar Otávio Rocha, postou-se à minha frente, bracinhos cruzados, escondendo o crachá e, sorrindo, desafiava a minha memória; alguns segundos foram necessários para que eu reconhecesse, no sorriso alegre, daquela senhora simpática, a minha coleguinha brilhante de primário, então com 10 anos de idade. E foram dezenas de alegrias semelhantes, com o mesmo entusiasmo, na recepção aos convidados. Mas a festa estava apenas começando ...
Assim que acomodados os primeiros participantes em suas mesas, onde raramente poderiam ser encontrados, diga-se de passagem, foi iniciada a exposição dos “clips” e os amigos assistiam, emocionados, à execução das músicas que tanto haviam dançado pelos cantores que tanto sucesso fizeram em nossa época; e desfilavam perante todos, artistas que variavam entre Neil Sedaka, Paul Anka e Billy Cafaro, até Ray Conniff e Starry Night Orchestra. O salão encheu-se total e rapidamente e ninguém parava sentado em sua própria mesa, na ânsia de cumprimentar pessoas que julgavam ter reconhecido ou confessar o seu engano.
Assim que todos os cem convidados se fizeram presente, as luzes foram minimizadas e o nosso amigo Beto Abrahão, da comissão, subiu ao local dos discursos e contou, rapidamente, a história da origem da festa e terminou, como absoluta surpresa, me fazendo uma homenagem, como mentor do encontro. Com a surpresa, convidou-me a subir para dar as boas vindas aos nossos cem queridos amigos. E o sonho tomou conta da minha emoção quando declarei a minha alegria aos amigos presentes, pela homenagem aos amigos já partidos, quando relatei as declarações de amor recebidas, as emoções percebidas nos telefonemas e mensagens trocadas; e quando prestei uma singela homenagem ao Dr. Júlio Bocaccio, idealizador do COPA, e sua esposa, D. Alzirinha. E o meu discurso foi, literalmente, para o espaço: mal pude balbuciar umas poucas palavras e cedi meu lugar a outros oradores, para ir abraçar os amigos com que ainda não havia falado. E pediu a palavra o nosso amigo Nelson Motta, o Curuca, ex presidente e um dos líderes do COPA à época. O Curuca lembrou vários episódios da época, envolvendo pessoas e acontecimentos e lembrando, através de uma gravação, o encerramento pontual e bem comportado das reuniões dançantes do COPA. E após algumas palavras, demonstrou a sua alegria em estar participando da festa e despediu-se visivelmente emocionado.
As luzes foram novamente acesas e fomos todos convidados, pela Mestra de Cerimônias, a participar de um maravilhoso jantar, servido e saboreado ao som das músicas da época, gravadas em CD especial, e iluminado por um “power point” especialmente preparado com todas as fotos – antigas e atuais - que haviam sido enviadas pelos amigos e publicadas em nosso álbum na Internet.
A partir daí, tudo começou, realmente, a ficar muito nebuloso, como um verdadeiro sonho sempre é. Todas as ações começaram a se tornar um pouco irreais. Lembro muito bem de ver as pessoas a se movimentarem pelo salão, buscando reconhecer nas várias mesas os amigos antigos. Era estranho constatar que, mesmo modificados pelos anos acumulados, rapidamente se transformavam, assim que identificados, nos mesmos adolescentes de cinquenta anos atrás, com a mesma forma de agir e de falar, alguns até mesmo com as mesmas brincadeiras de tantos anos passados. Não lembro, exatamente, da minha participação pessoal na festa. Lembro de ter tirado algumas fotos com alguns amigos, sentado em umas poucas mesas para uma rápida conversa com outros; mas nem as fotos foram todas as que eu gostaria de ter tirado, nem as mesas que visitei, uma vez que gostaria de te sentado e conversado com todos os meus amigos. Fiquei devendo a todos no sonho e sonhos não se repetem... Lembro perfeitamente que existiam amigos muito queridos e mais íntimos de nossa época, que gostaríamos muito de ter atendido melhor e não pudemos; sonhos não são sonhados totalmente sob o nosso controle. Lembro também de alguns que, por razões pessoais, tiveram que realizar um enorme esforço para estar presentes em nosso festa, sob a minha insistência até mesmo obstinada e teimosa, e não pude a eles dedicar o tempo que eu gostaria de ter dedicado; sonhos sempre deixam a desejar.
Nada faltou em meu sonho, pois a família Bocaccio, representada pelos filhos Nora, Memeis, Meieno e Xyko e seus pares, preparou-nos uma agradável surpresa, providenciando até mesmo um enorme bolo de aniversário, com as velinhas de 50 anos, maravilhosas, brilhando na penumbra do salão. Nora e Xyko fizeram discursos curtos e emocionados, em que agradeceram as homenagens prestadas a seus pais e demonstraram toda a sua alegria por terem participado da organização e estarem vivenciando a festa. Participei, emocionado, do apagar das velinhas, com os amigos da Comissão e os irmãos Bocaccio. E era tudo uma grande alegria, com todos os amigos aplaudindo, batendo fotos e confraternizando, como numa verdadeira grande reunião de amigos de 50 anos.
E chegou, finalmente, a hora tão esperada do baile dos 50 anos. E abrimos o baile, minha esposa e companheira de uma vida, Lene, e eu, com a alegria e a emoção de ver realizado um tão sonhado, construído e esperado sonho. E juntos, os nossos pares de amigos encheram o salão e dançamos todos embalados pelas vozes dos nossos cantores e orquestras preferidas das décadas de 50 e 60. E o sonho tornou-se um sonho realizado; e a névoa do sonho foi-se tornando mais densa e compacta à medida que o tempo passava e as pessoas iniciavam as suas despedidas; e as figuras conhecidas dos nossos amigos do passado se confundiam com a bruma e se desvaneciam na atmosfera do salão pouco iluminado, sem a realidade da despedida, como num verdadeiro sonho...
Eu tive um sonho, há pouco tempo atrás; e foi tão real ... Como eu gostaria que todos os meus amigos do passado pudessem ter compartilhado do meu sonho ....

quarta-feira, 30 de junho de 2010

REMINISCÊNCIAS

Queridos Selene e Nelson
O bom da vida é mesmo a gente ter a possibilidade de lembrar! É sinal de que ainda estamos bem vivos e, apesar do tempo, muito capazes de pensar e agir com o coração e a mente lúcidos e inteiros!
Melhor, ainda, é sabermos que na terra existem a emoção, o carinho, a amizade, a gentileza e, acima de tudo, muito amor!
Com o amor, vieram as lembranças de um tempo já bem distante, que nos fez, num só golpe de sorte, trocarmos o ontem pelo agora, numa felicidade tão grande que quase nos impede até de termos a certeza de que isto aconteceu!!!!
Cada vez me convenço mais: o ser humano é incrível! Que capacidade tem de amar e de sofrer pelo irmão! Como é capaz de transformar-se, num repente, e pensar: será que eu ainda tenho 22 anos? ou 16? ou 14? ou 24? Essas eram as nossas idades naquele tempo em que a bola corria pela Tobias, pela Paisandú, pela Machado e arredores! Essas eram as idades das meninas "casadoiras" que se achegavam para a mais velha, já casada, para conversinhas nas arquibancadas, fingindo que assistiam aos treinos dos meninos, com os olhinhos espichados para o campinho ou o meio da rua!!!! Tempo muito bom aquele, como muito bom é o de hoje! Afinal, tivemos a chance maior e a felicidade de nos revermos inteiros e com saudade, muita saudade!
Obrigado, queridos Nelson e Selene, pelas horas de lembranças e de amenidades! Quantas memórias, quanta história! Quantos foram esses amores da nossa infância, adolescência e juventude!
Obrigado a vocês pela oportunidade de nos vermos e nos enxergarmos no fundo de nós mesmos, do que fomos e do que somos hoje: retrato fiel do nosso passado e presente que está sendo capaz de nos mostrar que neste mundo existe amizade, afeto, solidariedade e de que, apesar da distância , no coração e na mente existem gavetas recheadas de amor onde sempre se encontra aquilo que aparentemente estaria perdido ou amarelado pelo tempo. Minha querida mãe Alzirinha , dizia muitas vezes que RECORDAR É VIVER!! Então, queridos amigos, estamos bem vivos e cheios de muito boas recordações ! E isto é muito importante e nos faz muito felizes.
Nosso beijo muito carinhoso,
Nora e Cinel

Autor: NORA BOCACCIO CINEL

terça-feira, 29 de junho de 2010

A TRIBO DA TOBIAS DE CIMA - PARTE 3

Olympia, a órfã

Lá por 1956 ou 1957, meu pai um dia chegou todo faceiro, trazendo Olympia. Vamos tratá-la assim; primeiro por ser este o nome que lhe foi dado pela Adam Opel GmbH, de Russelheim, Hessel, Alemanha, onde nascera em 1939, e também por sua semelhança de caráter com a personagem principal daquele recente filme assustador, “A Órfã”.
Pois Olympia, a órfã, era tal e qual Esther: bonitinha, recatada, carinha de boa menina. Quem a visse não lhe dava mais que oito anos, embora já tivesse quase dezenove. Logo conquistou a família toda, principalmente o coração de meu pai, que pela primeira vez na vida deixava a condição de sócio da Companhia Carris Porto-Alegrense e passava à categoria de cidadão motorizado. Tinha por volta de 37 anos e até então só havia pilotado bicicleta., além dos cavalos do regimento de São Luiz Gonzaga, no qual servira como reservista do CPOR.
Olympia era azul marinho, tinha acomodações para quatro adultos e pneus banda-branca. Sua carcaça estava em perfeitas condições, porém o mesmo não se poderia dizer de seu organismo, cujas mazelas foram se revelando aos poucos. Uma de suas doenças crônicas, que se revelou logo no dia da chegada, foi sua resistência a entrar em funcionamento.

Olympia 1939

Seu engenhoso sistema de arranque consistia num pedal revestido de borracha e no formato de uma seção cilíndrica, que ficava posicionado entre os pedais do acelerador e do freio e ligeiramente acima destes. Para dar partida no motor, o motorista ligava a chave da ignição para que a energia elétrica da bateria fluísse pelo sistema; depois, colocava a ponta do pé direito ligeiramente torcido para a esquerda sobre o tal pedal de arranque de modo que seu calcanhar repousasse sobre o pedal do acelerador; feito isto, pressionava o pedal do arranque com a ponta do pé até o motor começar a pegar, quando então, coordenadamente, aliviava a pressão na ponta e pressionava suavemente o calcanhar sobre o pedal do acelerador. Era uma espécie de “punta e taco”. Coisa de alemão. Devia funcionar às mil maravilhas desde que o motor funcionasse, o que no caso da Olympia nunca acontecia.
Já na primeira saída, Olympia mostrou a que viera. Entusiasmado com o carrinho, carteira recém-adquirida, o velho resolveu visitar a irmã, que morava na Vila do IAPI. Convidou para o passeio a mim e ao meu irmão, o Polaco. Incautos, aceitamos.
O trajeto previa a subida da Protásio Alves, que na época misturava bondes com automóveis, ônibus e carroças. Numa parada em subida, Olympia fingiu-se de morta. Para fazê-la pegar, o velho decidiu proceder como lhe haviam soprado. Engatou uma ré, pisou no pedal da embreagem, mandou que nos abaixássemos para que ele pudesse enxergar atrás (estávamos os dois no banco traseiro) e se mandou de ré Protásio abaixo, tentando fazer Olympia pegar no tranco. Lá atrás, eu e o Polaco, apavorados, víamos automóveis, ônibus, carroças e pedestres fugindo daquele carro que vinha aos trancos na contramão. Imaginávamos a hora em que surgiria um bonde, menos flexível, quando então seria o nosso fim. Surpreendentemente, a manobra foi bem sucedida. Olympia pegou, chegamos são e salvos ao IAPI e retornamos à Tobias inteiros, sem um arranhão sequer.
De outra feita ela se esmerou na armadilha para eliminar todos de uma só vez. Era um sábado de sol e o velho resolveu proporcionar à família a degustação de um café colonial em Morro Reuter. Olympia parecia radiante e feliz, como todos nós. Criaturinha dissimulada...
Partimos por volta das onze da manhã e chegamos sem novidades. Refestelamo-nos com o café colonial, passeamos a pé um pouco pelas redondezas e embarcamos felizes e contentes na Olympia, que nos aguardava com um sorrisinho maroto. Achamos que ela também estava apreciando o passeio. Até que estava, mas não da forma que imaginávamos, como verão a seguir.
Vencido o primeiro obstáculo, isto é, a partida do motor, que excepcionalmente foi normal, o velho afastou-se do estacionamento de ré, engrenou uma primeira e ingressou na estrada, que naqueles tempos se chamava BR-2. Foi esta a última vez que conseguiu movimentar a alavanca de mudança de marcha e o pedal da embreagem. Imaginem isso na descida da serra. Olympia nos obrigou a trazê-la direto a Porto Alegre sem parada, nem em engarrafamento, nem em sinal, nem em nada, sob pena de ficarmos plantados no caminho, aguardando um socorro quase impossível (os celulares ainda estavam sessenta anos no futuro).
E assim viemos, furando barreiras policiais e interdições de meias-pistas, ultrapassando na contramão, jogando carros para o acostamento e varando sinais fechados. Por obra e graça da sorte, chegamos sãos e salvos à nosso porto seguro, à Tobias de Cima. Dava para ver a contrariedade estampada na fisionomia de Olympia. Seu plano perfeito de eliminar toda a família não podia ter dado errado. Da próxima vez, ela não falharia.
Mas não haveria uma próxima vez. Depois de gastar mundos e fundos recuperando Olympia; de deixá-la como nova, meu pai convidou minha mãe para irem ao Cinema Baltimore. Era aniversário de casamento deles, e o programa incluía cinema e um jantar a dois. Ele foi com seu melhor terno de linho branco, pois fazia calor. Na saída do Baltimore, quando entrava no carro, descobriu um pneu vazio. Tirou o paletó, pegou o macaco no porta-malas, improvisou algo para entrar embaixo do carro sem se sujar e foi ai que Olympia resolveu se vingar.
Começou por esconder o encaixe do macaco, uma coisinha que mais parecia peça de playmobil. Como se isso não bastasse, ela providenciou um vazamento de óleo exatamente sobre os olhos do velho, que escorria depois para a camisa de casimira. Para encurtar essa já longa história, basta dizer que no dia seguinte o velho a levou embora para nunca mais.

Ford 1939

Trocou-a por um Ford 4 portas 1939, cor cinza. Levou-me com ele na Rua Laurindo, onde ficava a revenda. Sentamos lado a lado no banco da frente. A primeira coisa que ele fez, ainda dentro da loja, foi ligar a chave e apertar um botãozinho que havia no painel, o botão de arranque. Ato contínuo, o motor de oito cilindros em V pegou com um estrondo possante. Em meio ao barulho, que reverberava nas paredes da revenda, e do cheiro forte de gasolina, virou-se para mim e sorrindo feliz disse: ― Viu, este pega!

Autor: CARLOS ARI

domingo, 20 de junho de 2010

A TRIBO DA TOBIAS DE CIMA - PARTE 2

Como naqueles tempos automóvel zero quilômetro era artigo de luxo, a Tobias de Cima era povoada de veteranos do asfalto que fariam a felicidade de colecionadores e a fortuna de nós todos, seus presumidos herdeiros, tivessem eles se conservado íntegros e bem compostos ao longo desses últimos cinqüenta anos, coisa que infelizmente nenhum deles conseguiu, nem nós.
No lado par da rua, a partir da pracinha, seu Julio Patta era pedestre. Seu vizinho do lado, um francês que tinha pavor de barulho de bombas e rojões de São João, e que por isso comentavam ter neurose de guerra, possuía um Citröen preto. Seu José Barbosa Falcão, pai da Zenaide, tinha um Austin A-70. Seu Dirceu Gastão Viggevani, pai da Dirce, tinha garagem, mas não tinha carro. Meu pai adquiriu um Opel Olympia modelo 1939, isto por volta de 1956 ou 1957. Seu Tupy Prestes, pai do Tonho, tinha um Dodge 1951. O pai do Jorge e da Jane Crivelaro era proprietário de um Ford 1951 azul marinho, verdadeira jóia que ele mantinha a maior parte do tempo na garagem, polindo suas partes niqueladas e lustrando sua flamante lataria.
No lado ímpar, seu Rosa, marido de Dona Julieta, possuía um belo Rover verde-garrafa 1952. Doutor Guido sonhava com helicóptero, mas andava a pé. Seu Carlos Azambuja, pai do Nei e do Nelson, tinha um Prefect ou Anglia e seu Hélio Oliveira, pai do Sohel e do Helso, tinha um Renault 4 v 1950, “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda”. Para os não iniciados, explico os inusitados codinomes.
Naquele tempo, havia um pequeno Renault quatro portas, avô do Renault-Willys Dauphine fabricado no Brasil nos anos 1960, que comportava quatro pessoas apertadas. Tinha o motor traseiro e os apelidos “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda” devido à ilação perniciosa, feita pelo povo, entre a localização e temperatura de seu motor e o frenético sacolejar das partes posteriores da famosa cantora e atriz luso-brasileira.
Dentre todos os automóveis da rua, alguns participaram de memoráveis aventuras. Dois, no entanto, destacaram-se dos demais pelas freqüentes dores de cabeça que davam a seus proprietários, deixando-os na mão nas ocasiões mais impróprias e inesperadas. Estes eram o Renault do seu Hélio e o Opel de meu pai. Os dois eram como aqueles endiabrados personagens da história em quadrinhos “Os sobrinhos do capitão”, o Hans e o Fritz, que viviam aprontando. Ambos recusavam-se terminantemente a despertar através de seus respectivos motores de arranque. Exigiam a força de “baterias externas”, isto é, de impulsos mecânicos fornecidos pela gurizada da rua. Trajando uniformes escolares e carregando nossas pastas debaixo do braço, empurrávamos ora o Renault ora o Opel lomba abaixo e depois corríamos para alcançá-los; cena rotineira nas manhãs da Tobias de Cima.
Dos dois, o “Rabo Quente” era o mais sacrificado. Normalmente operava com excesso de carga, haja vista que tanto seu Hélio quanto seus dois filhos eram grandes e pesados. Não poucas vezes a família foi surpreendida pela quebra de uma ponta de eixo do carrinho nos esburacados caminhos que então conduziam à praia da Alegria, onde os Weber de Oliveira costumavam veranear.
Os contumazes abusos do “Rabo Quente” à paciência de seu proprietário chegaram ao fim certa manhã em que ele apagou na subida da lomba do sétimo, bem na hora do pico. Após várias e infrutíferas tentativas de fazê-lo pegar, seu Hélio desembarcou furioso e passou a agredi-lo a socos e pontapés, cena de selvageria testemunhada pela atônita platéia embarcada nos bondes, ônibus e automóveis que transitavam pelo local. Muitos que acreditavam estar assistindo a um surto de loucura do proprietário do indefeso carrinho certamente mudariam de idéia se conhecessem os antecedentes da “vitima”. Depois desta, seu Hélio trocou o Renault por um Oldsmobile hidramático, modelo 1948, cor cinza, grande e robusto, bem mais adequado à família do que o pequeno e frágil “Carmem Miranda”.

Autor: CARLOS ARI

domingo, 13 de junho de 2010

AMACORD 1

Taí óh, prezado Carlos Ari, nunca tinha pensado a Tobias em territórios, seria dividida, na verdade, pelas faixas etárias?
A pracinha, se bem me lembro, era campo neutro, onde as peladas eram mais quentes, pois os – agora - da “Tobias de Baixo”, jogavam com os “estranhos” – gurizada que descia o morro -, em jogadas mais disputadas, já que estávamos jogando “fora de casa”. No “nosso campinho” as peladas entre o América e o Perigoso (que só eram interrompidas quando escurecia, pois não se enxergava mais a bola!!!) eram jogos com fardamento e muitas vezes até com torcida - campinho próprio é outra coisa!! -. Então, a turma da “Tobias de Baixo” era formada, na ordem, descendo a rua e da nossa faixa de idade (os de cima já eram coroas para nós): Nelsinho Abrahão (primo do Beto), Vitor Hugo Aita (irmão da Suzete), José Francisco Braga (irmão da Vera e Ligia), Gil Meira (o laçador de carro – está estória fica para depois), Raul e Milton Abrahão, Bileco Tonin ( irmão da Suzana), Xyko Bocaccio (irmão da Nóra, Lúcia, Memeis e Meieno) , Marco Aurélio dos Santos irmão da Valéria, Bento José e Flávio Lima (irmãos da Eunice, meus primos), Beto e seu irmão Luis Antonio Grassi . Este elenco formava dois times: os seis primeiros vestiam as camisetas do América (dono do campinho), e do Perigoso os demais (cujos treinos eram feitos na rua e as goleiras eram os portões da casa do tio Bento e da minha). Na faixa dos menores – os “pirralhos” - lembro do Eduardo Pilla, Luis Pedro e Carlos Alberto.
Nossos passeios de bicicleta incluíam até a pracinha, Martin Bromberg, Paissandú ou, com mais aventura, descer a Humberto de Campos – então de chão batido – lomba abaixo, de braços abertos, SEM SEGURAR O “GUIDON” DA BICICLETA, até a PETISQUEIRA - era o máximo!!
Cara Lenora! Quanto às fogueiras: ahá!!, na “Tobias de Baixo” também se faziam fogueiras, entre outras tantas traquinagens - idos de 1955–60. As mesmas eram manufaturadas no meio da rua em frente ao terreno baldio (na verdade o terreno era do Seu LILITO pai do Beto, do Puchuca (Raul) e do Mito (Milton) - entre a casa do Beto Turco e a do Ivo Tonin pai do Bileco (Luis Alberto). A estrutura da fogueira era formada por um tronco de árvore ou caibro mantidos em pé por um colar de pneus velhos (como um rocambole) cuidadosa e criteriosamente selecionados para serem empilhados e imolados em ordem cronológica de seus diâmetros mantendo assim o equilíbrio da massa de galhos, tábuas e jornais que os circundavam formando um “complexo emaranhado equivalente a um prédio de dois a três andares (sem cobertura) que arderia como o fogo do inferno, enquanto as fagulhas subiam aos céus, iluminando toda a Tobias Barreto. Era a consagração das muitas horas de busca e apreensão do material que era recolhido de casa em casa. Não tinha amendoim, não; o que pipocavam eram as bombas e bombinhas, rojões e busca-pés e, o auge da emoção, com muita adrenalina, era soltar os “rojões enlatados” (prendia-se a bomba dentro de uma lata e calçava com o pé – que loucura), especialidade do José Francisco Braga. Nota: ninguém perdeu o pé!!, só se perdia o juízo, mas era bom!!! Só terminava após pular a fogueira, mais outra manobra de risco!! Era a prova de coragem !! (risos).
Quanto ao subir nas árvores, na Tobias “entre a Pracinha e a Bento”, passávamos muitos momentos comendo caquis e goiabas (com bichinho e tudo) sentados nos galhos e ainda saboreávamos, coquinhos, pitangas e butiás (que estômago! ) no pátio da 71.
E as gincanas de Carrinho de lomba!! (os bólidos eram de confecção caseira, artesanal em madeira e com rodas de rolimã (rolamentos) rodas maiores no eixo traseiro, fixo, e com diâmetro menor no eixo móvel dianteiro; os mais sofisticados tinham freio de mão, caso contrário, não tinha sola de sapato ou do “guides” (hoje conhecido como tênis) que resistisse.

Imagem meramente ilustrativa, réplica do modelo de época

As competições eram feitas em duplas, individuais ou em comboios com até três carrinhos e os circuitos eram traçados, delineados pelos labirintos lajeados do pátio da 71, de acordo com o grau de dificuldade de cada prova; e a competição só encerrava quando não se enxergava mais o trajeto e terminavam as tardes de sábado.
Mas nem tudo era paz!!? E as “batalhas” eram entre o acampamento do campinho e o instalado no fundo do quintal da 71. As barracas montadas, com quase nada dentro, e o arsenal de pedras prontas para serem projetadas por cima dos muros. Coitados dos telhados. E a estratégia era atacar, ou pela rua, ou pelos fundos, escalando os muros, sobre os quais corríamos com habilidade impar!! Era lícito também o uso e porte de “funda, bodoque, estilingue” (para as gurias entenderem: é uma forquilha de madeira ou metal - modelo mais sofisticado – com tira de borracha, geralmente confeccionada com câmara de pneu de carro, já que a de bicicleta era muito frágil, sem poder de fogo) com a qual eram lançadas as bolinhas de cinamomo que recheavam os bolsos dos calções, que naquele tempo iam quase até os joelhos!

Imagem meramente ilustrativa, réplica do modelo de época

Como para nos redimirmos das malvadezas, criávamos pombos correios (símbolos da paz) e suas revoadas enfeitavam e “bosteavam” os telhados e arredores. Eram enviados, após exaustivos treinamentos, de trem para São Paulo e de lá, soltos, levavam dois a três dias para chegarem cansados e famintos em seus pombais. Espetacular!! Façanha nossa ou dos pombos?
Alguém lembra dos irmãos chineses ( era um casal) que eram muito altos e desciam a Tobias de patins com toda a destreza e muita habilidade??
Não perca no “AMACORD 2”, a guerra com escudos e bolas de meia e algumas dos bondes “gaiola”.
Quem sabe juntando todas estas crônicas e estórias da nossa infância/mocidade, não sai um livro - CRÔNICAS do COPA - dedicado às crianças carentes do Partenon !! É só uma idéia!! O que acham??
Saudações e abraços aos amigos do COPA

Autor: Xyko Bocaccio

sábado, 12 de junho de 2010

A TRIBO DA TOBIAS DE CIMA - PARTE 1

Há cinqüenta anos, duas tribos habitavam a Rua Tobias Barreto: a "Tobias de Cima" e a "Tobias de Baixo". A fronteira entre as duas era uma linha imaginária que cortava mais ou menos ao meio a Praça Esperanto, que todo mundo chamava mesmo de pracinha. Afirmam alguns antropólogos haver existido ali também uma terceira tribo, a "Tobias do Meio", cujo território abrangia o entorno da pracinha e se estendia ao longo da Rua Martin Bromberg, até os limites da Paissandu. Por se tratar de matéria altamente controvertida, prefiro considerar essa população como integrante da "Tobias de Baixo".
Mesmo tendo vida autônoma, as duas tribos mantinham boas relações, já que os de cima eram frequentemente obrigados a transitar pelo território dos de baixo em seus deslocamentos diários entre seu território e a Avenida Bento Gonçalves, a grande artéria que unia o arrabalde Partenon ao resto do mundo. A pracinha, que tinha dois tanques de água, gangorras e balanços, era limpa e às vezes freqüentada por nós, membros da tribo de cima, embora pudéssemos ser mais facilmente localizados no trecho da rua que ficava situado entre a casa do seu Patta e a do seu Carpes.
O centro de nossa taba era o terreno baldio confinado entre as casas do doutor Guido e a do seu Carlos e da dona Mariazinha. Ali o doutor Guido, italiano grande e calvo, engenheiro ou construtor ― as profissões dos adultos não eram objeto do interesse dos membros da tribo ― construíra um galpão que lhe servia de oficina. A única coisa que sei dele é que era casado com uma ex-cantora lírica italiana, que fez do teto de sua casa um heliponto (isso na década de 1940!) por acreditar que o helicóptero seria o transporte do futuro, que não tinha filhos, que fazia balas de funcho para distribuir entre nós e que morreu subitamente do coração, ao mergulhar numa banheira gelada num dia de intenso calor.
Desmanchado o galpão após a morte do doutor Guido, ficamos donos do terreno. Nossas peladas, antes jogadas com bolas de meia no áspero “gramado” de paralelepípedo da rua, tendo as garagens de portas metálicas por goleiras, agora passaram a ser disputadas em campo decente. A bem da verdade, o tal terreno não era nivelado nem plano. Tinha desníveis, cocurutos, macegas e restos do tal galpão, porém não tinha meio-fio nem paralelepípedo. Jogávamos agora com bola de verdade, e as garagens de nossos pais e os ouvidos da vizinhança eram poupados das freqüentes boladas. Os goleiros eram frangueiros, porque ninguém queria ficar no gol. Quem se revelasse bom “guarda-vala”, passava o jogo todo só levando bolada.
Eram membros permanentes da tribo da "Tobias de Cima": Fernando e Cota Patta, Zenaide Falcão, Dirce Viggevani, Nei e Nelson Azambuja, Carlos Ari e Antonio Carlos Germano da Silva, Antonio Celso Queiroz Prestes, Jane e Jorge Crivelaro, Sohel e Helso Weber de Oliveira, Dilnei, Silnei e Marle Moraes Carpes. Lembro de alguns membros temporários, como Zé Macaco, que participava das peladas de rua; do mais moço dos Pfeiffer (infelizmente não recordo seu primeiro nome), em cuja garagem jogávamos ping-pong; do Juca, que morou na casa geminada com a do Nei e do Nelson; do Pedro, que morou na casa que tinha sido dos Crivelaro. Minhas irmãs Marília e Graça e a irmã mais nova do Dilnei, Marilei Siglia, por serem muito novas estavam numa posição correspondente à categoria “infantis” de um clube de futebol. Nós outros, é claro, éramos “os profissionais”.
Feita a apresentação da “Tribo da Tobias de Cima”, encerro por hoje. Um abraço a todos e até a próxima mini-crônica.

Autor: Carlos Ari

terça-feira, 27 de abril de 2010

COPA 50 ANOS

A provocação do Nelson fez reviver o cenário de nossa infância e adolescência, fez as velhas árvores voltarem a florescer, as casas antigas rejuvenescerem, o ar ficar mais leve e o céu mais claro; as noites, antes lúgubres e vazias, voltarem a se encher da algazarra de vozes infantis, do clarão de fogueiras de São João, de cantigas de roda e do ruído de mil correrias de crianças, de vozes de mães chamando pelos filhos, anunciando o toque de recolher. Naqueles tempos, há cinqüenta anos, Paissandu e Tobias Barreto eram refúgios protegidos contra todos os males do mundo, que ficava longe, muito longe, lá no centro da cidade, aonde íamos de bonde ou à vezes de lotação, espremidos num velho Lincoln 1951, entre mais nove passageiros.

Nelson nos trouxe de volta as chaminés em forma de galo e as fumaças dos fogões à lenha, as peladas nos terrenos baldios, as bolitas, os piões, os campeonatos de times de botão, as coleções de figurinhas e de bandeirinhas dos pirulitos Kibon, as matines do Cinema Brasil, as guloseimas do seu Roberto e da Petisqueira, as balas de funcho do Dr. Guido, o bonde gaiola, os brinquedos da Ferragem Simões, os carnavais da Bento Gonçalves e tantas outras coisas que eu pensei haver perdido para sempre quando parti para Barbacena numa manhã de janeiro de 1962, com destino à Escola Preparatória de Cadetes do Ar, perseguindo o sonho de ser aviador, mas que me foram restituídas, como num passe de mágica, por um telefonema do Nelson, cinqüenta anos mais tarde.
Autor: Carlos Ari.

CARLOS ARI CÉSAR GERMANO DA SILVA - APRESENTAÇÃO PESSOAL

Nasci em 01 de maio de 1945. Morei na Tobias Barreto 460 de 1953 a janeiro de 1962, quando ingressei na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena, Minas Gerais. Conclui o Curso de Formação de Oficiais Aviadores, da então Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, em 1968. Permaneci na Força Aérea Brasileira até março de 1987, quando pedi transferência para a reserva no posto de tenente-coronel-aviador. Em agosto de 1987, ingressei na Rio-Sul Linhas Aéreas, em Porto Alegre, como comandante de Bandeirante. Nesse mesmo ano, reencontrei Lenora e formamos nova família. Eu trazia três filhos do primeiro casamento e ela também três de seu primeiro casamento, totalizando seis meninos. Permaneci na Rio-Sul até março de 2002, quando me aposentei como comandante de Boeing 737 e gerente de segurança de voo da empresa. Após a aposentadoria, transferimos nossa residência para a Praia do Rosa, em Santa Catarina sem, contudo, rompermos nossas raízes com Porto Alegre, onde moram quatro de nossos seis filhos. Desde então, tenho dedicado meu tempo a escrever. Meu primeiro livro – O Rastro da Bruxa: história da aviação comercial brasileira no século vinte através de seus acidentes (1928-1996) – teve boa acolhida e já está em sua segunda edição pela EDIPUCRS.
Autor: Carlos Ari.