Como naqueles tempos automóvel zero quilômetro era artigo de luxo, a Tobias de Cima era povoada de veteranos do asfalto que fariam a felicidade de colecionadores e a fortuna de nós todos, seus presumidos herdeiros, tivessem eles se conservado íntegros e bem compostos ao longo desses últimos cinqüenta anos, coisa que infelizmente nenhum deles conseguiu, nem nós.
No lado par da rua, a partir da pracinha, seu Julio Patta era pedestre. Seu vizinho do lado, um francês que tinha pavor de barulho de bombas e rojões de São João, e que por isso comentavam ter neurose de guerra, possuía um Citröen preto. Seu José Barbosa Falcão, pai da Zenaide, tinha um Austin A-70. Seu Dirceu Gastão Viggevani, pai da Dirce, tinha garagem, mas não tinha carro. Meu pai adquiriu um Opel Olympia modelo 1939, isto por volta de 1956 ou 1957. Seu Tupy Prestes, pai do Tonho, tinha um Dodge 1951. O pai do Jorge e da Jane Crivelaro era proprietário de um Ford 1951 azul marinho, verdadeira jóia que ele mantinha a maior parte do tempo na garagem, polindo suas partes niqueladas e lustrando sua flamante lataria.
No lado ímpar, seu Rosa, marido de Dona Julieta, possuía um belo Rover verde-garrafa 1952. Doutor Guido sonhava com helicóptero, mas andava a pé. Seu Carlos Azambuja, pai do Nei e do Nelson, tinha um Prefect ou Anglia e seu Hélio Oliveira, pai do Sohel e do Helso, tinha um Renault 4 v 1950, “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda”. Para os não iniciados, explico os inusitados codinomes.
Naquele tempo, havia um pequeno Renault quatro portas, avô do Renault-Willys Dauphine fabricado no Brasil nos anos 1960, que comportava quatro pessoas apertadas. Tinha o motor traseiro e os apelidos “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda” devido à ilação perniciosa, feita pelo povo, entre a localização e temperatura de seu motor e o frenético sacolejar das partes posteriores da famosa cantora e atriz luso-brasileira.
Dentre todos os automóveis da rua, alguns participaram de memoráveis aventuras. Dois, no entanto, destacaram-se dos demais pelas freqüentes dores de cabeça que davam a seus proprietários, deixando-os na mão nas ocasiões mais impróprias e inesperadas. Estes eram o Renault do seu Hélio e o Opel de meu pai. Os dois eram como aqueles endiabrados personagens da história em quadrinhos “Os sobrinhos do capitão”, o Hans e o Fritz, que viviam aprontando. Ambos recusavam-se terminantemente a despertar através de seus respectivos motores de arranque. Exigiam a força de “baterias externas”, isto é, de impulsos mecânicos fornecidos pela gurizada da rua. Trajando uniformes escolares e carregando nossas pastas debaixo do braço, empurrávamos ora o Renault ora o Opel lomba abaixo e depois corríamos para alcançá-los; cena rotineira nas manhãs da Tobias de Cima.
Dos dois, o “Rabo Quente” era o mais sacrificado. Normalmente operava com excesso de carga, haja vista que tanto seu Hélio quanto seus dois filhos eram grandes e pesados. Não poucas vezes a família foi surpreendida pela quebra de uma ponta de eixo do carrinho nos esburacados caminhos que então conduziam à praia da Alegria, onde os Weber de Oliveira costumavam veranear.
Os contumazes abusos do “Rabo Quente” à paciência de seu proprietário chegaram ao fim certa manhã em que ele apagou na subida da lomba do sétimo, bem na hora do pico. Após várias e infrutíferas tentativas de fazê-lo pegar, seu Hélio desembarcou furioso e passou a agredi-lo a socos e pontapés, cena de selvageria testemunhada pela atônita platéia embarcada nos bondes, ônibus e automóveis que transitavam pelo local. Muitos que acreditavam estar assistindo a um surto de loucura do proprietário do indefeso carrinho certamente mudariam de idéia se conhecessem os antecedentes da “vitima”. Depois desta, seu Hélio trocou o Renault por um Oldsmobile hidramático, modelo 1948, cor cinza, grande e robusto, bem mais adequado à família do que o pequeno e frágil “Carmem Miranda”.
Autor: CARLOS ARI

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