Há cinqüenta anos, duas tribos habitavam a Rua Tobias Barreto: a "Tobias de Cima" e a "Tobias de Baixo". A fronteira entre as duas era uma linha imaginária que cortava mais ou menos ao meio a Praça Esperanto, que todo mundo chamava mesmo de pracinha. Afirmam alguns antropólogos haver existido ali também uma terceira tribo, a "Tobias do Meio", cujo território abrangia o entorno da pracinha e se estendia ao longo da Rua Martin Bromberg, até os limites da Paissandu. Por se tratar de matéria altamente controvertida, prefiro considerar essa população como integrante da "Tobias de Baixo".
Mesmo tendo vida autônoma, as duas tribos mantinham boas relações, já que os de cima eram frequentemente obrigados a transitar pelo território dos de baixo em seus deslocamentos diários entre seu território e a Avenida Bento Gonçalves, a grande artéria que unia o arrabalde Partenon ao resto do mundo. A pracinha, que tinha dois tanques de água, gangorras e balanços, era limpa e às vezes freqüentada por nós, membros da tribo de cima, embora pudéssemos ser mais facilmente localizados no trecho da rua que ficava situado entre a casa do seu Patta e a do seu Carpes.
O centro de nossa taba era o terreno baldio confinado entre as casas do doutor Guido e a do seu Carlos e da dona Mariazinha. Ali o doutor Guido, italiano grande e calvo, engenheiro ou construtor ― as profissões dos adultos não eram objeto do interesse dos membros da tribo ― construíra um galpão que lhe servia de oficina. A única coisa que sei dele é que era casado com uma ex-cantora lírica italiana, que fez do teto de sua casa um heliponto (isso na década de 1940!) por acreditar que o helicóptero seria o transporte do futuro, que não tinha filhos, que fazia balas de funcho para distribuir entre nós e que morreu subitamente do coração, ao mergulhar numa banheira gelada num dia de intenso calor.
Desmanchado o galpão após a morte do doutor Guido, ficamos donos do terreno. Nossas peladas, antes jogadas com bolas de meia no áspero “gramado” de paralelepípedo da rua, tendo as garagens de portas metálicas por goleiras, agora passaram a ser disputadas em campo decente. A bem da verdade, o tal terreno não era nivelado nem plano. Tinha desníveis, cocurutos, macegas e restos do tal galpão, porém não tinha meio-fio nem paralelepípedo. Jogávamos agora com bola de verdade, e as garagens de nossos pais e os ouvidos da vizinhança eram poupados das freqüentes boladas. Os goleiros eram frangueiros, porque ninguém queria ficar no gol. Quem se revelasse bom “guarda-vala”, passava o jogo todo só levando bolada.
Eram membros permanentes da tribo da "Tobias de Cima": Fernando e Cota Patta, Zenaide Falcão, Dirce Viggevani, Nei e Nelson Azambuja, Carlos Ari e Antonio Carlos Germano da Silva, Antonio Celso Queiroz Prestes, Jane e Jorge Crivelaro, Sohel e Helso Weber de Oliveira, Dilnei, Silnei e Marle Moraes Carpes. Lembro de alguns membros temporários, como Zé Macaco, que participava das peladas de rua; do mais moço dos Pfeiffer (infelizmente não recordo seu primeiro nome), em cuja garagem jogávamos ping-pong; do Juca, que morou na casa geminada com a do Nei e do Nelson; do Pedro, que morou na casa que tinha sido dos Crivelaro. Minhas irmãs Marília e Graça e a irmã mais nova do Dilnei, Marilei Siglia, por serem muito novas estavam numa posição correspondente à categoria “infantis” de um clube de futebol. Nós outros, é claro, éramos “os profissionais”.
Feita a apresentação da “Tribo da Tobias de Cima”, encerro por hoje. Um abraço a todos e até a próxima mini-crônica.
Autor: Carlos Ari
Carlos Ari:
ResponderExcluirMuito apreciei a tua crônica. Com muito orgulho fui um dos guerreiros da tribo da "Tobias de Cima", embora depois tenha me bandeado para a da "Paissandu de Cima", sem arrependimentos, porque, se através da primeira conheci a Selene, minha namoradinha e esposa, na segunda pertencíamos à mesma tribo.
Grandes lembranças! Excelente memória a tua! Te confesso que não recordo da Jane e o Jorge Crivelaro. Lembro também muito bem da irmãzinha do Dilnei e do Silnei, mas não recordo de Marle Carpes. Também não recordo dos Pfeiffer. O Juca, possivelmente, morou na casa geminada à minha após a minha mudança da Tobias, o mesmo acontecendo, provavelmente com o Pedro. Havia também alguns amigos (meninos e meninas) que moravam na casa ao lado da do Antônio Celso; não lembras deles? Por falar nisso, precisamos movimentat o Tonho, que está muito "na moita".
Precisamos acionar o pessoal para colocar no circuito a Zenaide e a Dirce. Da mesma forma, deverias convidar as tuas manas Marília e Maria da Graça para participarem da festa. Tudo é encontro. E com isso equilibraríamos os gêneros.
Parabéns e um grande abraço.
Nelson.
Os pfeiffer tinham tres filhos:O mais velho, cujo nome não lembro,também jogava ping-pong, o Athos(cuja mãe chamava de Ata)e a Elisabeth, que regulava em idade com as gurias(Marília,Cota,Marle etc).Contribuição a crônica do mano C.Ari sobre a Tobias de cima. Há outros personagens que o tempo apagou da memória, mas que resgatarei em um próximo comentário.
ResponderExcluirLembranças.........são muitas. Me lembro das brincadeiras na casa da Selene, me lembro também de nos escondermos pra ver o namoro da Gilca(irmã do Bruno), com o Luis Carlos, sobrinho do marido da Dindinha (prof. Alba), me lembro das reuniões dançantes, me lembro dos amigos que fiz e daqueles que já se foram, principalmente do Tonio, um grande amigo, me lembro também de todos os dias passar na casa dos Landell de Moura, antes e depois da faculdade, me lembro de ter posto apelido em cada um deles. Enfim, são muitas lembranças............................
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