Lembrando das conversas que eu e Queca tínhamos com tua mãe, dona Mariazinha, não posso deixar de registrar como era gostoso vê-la tricotar. Era a Rainha do Tricô. Como eu, vizinha de lado, a incomodava para aprender o acabamento tão perfeitos que ela dava às suas peças, querendo reproduzir nas roupinhas de boneca!
Era gostoso brincar de “pegar” e de “esconder” no pátio da Queca, pulando literalmente de árvore para esconderijo e assim por diante, muitas vezes espalhando as folhas de outono, que seu Gabriel recomeçava a juntar pacientemente. Depois, corríamos para comer os bolinhos de queijo da dona Maria, mãe da Queca.
Tínhamos nossas árvores privativas, onde às vezes deixávamos bilhetinhos com os nomes ou só as iniciais dos paqueras. E os álbuns de amigos, que delícia! Surpresa e às vezes decepção, quando os meninos revelavam sua preferência por outra...
Troca de gibis no Cinema Brasil em sessões duplas, com intervalo para comprar balas “quebra-queixo”, “americanas” ou “gasosas”. Quem não lembra?
Nas festas de São João da Paissandu (não lembro se havia na Tobias Barreto) imensas fogueiras eram armadas pelo Tiziano, Arturito, nosso pai, Dr. Aimoré, pai da Neni e do Déco, e outros vizinhos. O quarteirão era fechado, isolado com cavaletes e tudo, e nós nos revezávamos em longas rodas e dança e quadrilhas, às vezes a caráter, com as mães servindo pipoca, amendoim, pinhão, queijadinha nos portões das casas, como se fossem barracas de uma feira.
Havia solidariedade entre vizinhos. Dr. Tapir, irmão do Aymoré, era médico de todas as emergências e nunca faltava a um chamado, mesmo durante a noite, inclusive de nossos vizinhos menos aquinhoados do morro, que começava a ser tomado por barracos. Vó Aurora ajudava quem batesse à porta, e muitas vezes o Arturito foi o transporte alternativo de quem não podia chamar “auto-de-praça”. Ninguém passava um sufoco sem que aparecesse uma visita com um bolo, um chazinho, um papo amigo. Lembro até de um incêndio por explosão de botijão de gás na casa onde havia morado a Nora Machi, quase em frente da nossa. Eram vizinhos novos, quase desconhecidos. Todos foram ajudar – uns retiravam os familiares, que instantaneamente eram atendidos pelo Dr. Tapir, abrigados e transportados pelos vizinhos para o HPS; outros retiravam móveis e o que mais fosse possível salvar, para diminuir as perdas.
As competições de ping-pong eram outra fonte de diversão, com escalas marcadas no quadro-negro e direito a torcida, nas garagens no fundo da casa da dinda Dalva, mãe do Jorge e do Nelson Leães. Às vezes, as partidas só acabavam com as chamadas desesperadas das genitoras, cansadas de requentar o jantar.
Por falar em Jorge Leães, filho da minha madrinha Dalva, que morava em frente à casa da Queca e do Athos, lá vai mais uma história dos namoros e casamentos da rua Paissandu, como contou o mano do Carlos Ari. O Jorge foi namorado da Marília, irmã do Carlos Ari, do Tonico e da Graça, mas acabou casando com a Neni, com quem teve duas filhas, uma das quais, a Roberta, foi por uns tempos namorada de meu caçula Roberto, sacaram?
Tonico casou com a Queca e tiveram a Gabriela, um amor de menina, publicitária, mãe da Maria Luiza. Claro que Queca, Lia e eu continuamos amigas de toda a vida e a consideramos mais uma das irmãs Ulrich, assim como consideramos a querida Vercy (Boeira), companheira do Roberto, viúvo de nossa irmã Rosely.
O tempo passou. Eu me separei do primeiro marido, pai de meus três filhos, e um belo dia encontro o Carlos Ari, também separado. Nunca mais nos deixamos. Casamos “de papel passado” tempos depois, tendo por padrinhos nossos seis filhos.
O tempo passou mais um pouco e, para nossa surpresa, Tonico, já separado pela segunda vez, nos apresenta sua nova parceira que, como ele diz, espera que seja a última, e que não é outra senão a Neni, irmã do Déco, filha de Aymoré e Anita! Considerando que a Gabriela é filha de Tonico e Queca e sobrinha do Carlos Ari, ganhei como sobrinha a filha de minha melhor amiga que também é enteada de outra grande amiga de infância! O resto conto outra vez, pois a coisa já vai longe e não quero monopolizar o espaço.
Que bom, Nelson, que vocês desataram este fio de nossas lembranças remotas, porém tão vivas!
Autor: Lenora Ulrich
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