Olympia, a órfã
Lá por 1956 ou 1957, meu pai um dia chegou todo faceiro, trazendo Olympia. Vamos tratá-la assim; primeiro por ser este o nome que lhe foi dado pela Adam Opel GmbH, de Russelheim, Hessel, Alemanha, onde nascera em 1939, e também por sua semelhança de caráter com a personagem principal daquele recente filme assustador, “A Órfã”.
Pois Olympia, a órfã, era tal e qual Esther: bonitinha, recatada, carinha de boa menina. Quem a visse não lhe dava mais que oito anos, embora já tivesse quase dezenove. Logo conquistou a família toda, principalmente o coração de meu pai, que pela primeira vez na vida deixava a condição de sócio da Companhia Carris Porto-Alegrense e passava à categoria de cidadão motorizado. Tinha por volta de 37 anos e até então só havia pilotado bicicleta., além dos cavalos do regimento de São Luiz Gonzaga, no qual servira como reservista do CPOR.
Olympia era azul marinho, tinha acomodações para quatro adultos e pneus banda-branca. Sua carcaça estava em perfeitas condições, porém o mesmo não se poderia dizer de seu organismo, cujas mazelas foram se revelando aos poucos. Uma de suas doenças crônicas, que se revelou logo no dia da chegada, foi sua resistência a entrar em funcionamento.
Olympia 1939
Seu engenhoso sistema de arranque consistia num pedal revestido de borracha e no formato de uma seção cilíndrica, que ficava posicionado entre os pedais do acelerador e do freio e ligeiramente acima destes. Para dar partida no motor, o motorista ligava a chave da ignição para que a energia elétrica da bateria fluísse pelo sistema; depois, colocava a ponta do pé direito ligeiramente torcido para a esquerda sobre o tal pedal de arranque de modo que seu calcanhar repousasse sobre o pedal do acelerador; feito isto, pressionava o pedal do arranque com a ponta do pé até o motor começar a pegar, quando então, coordenadamente, aliviava a pressão na ponta e pressionava suavemente o calcanhar sobre o pedal do acelerador. Era uma espécie de “punta e taco”. Coisa de alemão. Devia funcionar às mil maravilhas desde que o motor funcionasse, o que no caso da Olympia nunca acontecia.
Já na primeira saída, Olympia mostrou a que viera. Entusiasmado com o carrinho, carteira recém-adquirida, o velho resolveu visitar a irmã, que morava na Vila do IAPI. Convidou para o passeio a mim e ao meu irmão, o Polaco. Incautos, aceitamos.
O trajeto previa a subida da Protásio Alves, que na época misturava bondes com automóveis, ônibus e carroças. Numa parada em subida, Olympia fingiu-se de morta. Para fazê-la pegar, o velho decidiu proceder como lhe haviam soprado. Engatou uma ré, pisou no pedal da embreagem, mandou que nos abaixássemos para que ele pudesse enxergar atrás (estávamos os dois no banco traseiro) e se mandou de ré Protásio abaixo, tentando fazer Olympia pegar no tranco. Lá atrás, eu e o Polaco, apavorados, víamos automóveis, ônibus, carroças e pedestres fugindo daquele carro que vinha aos trancos na contramão. Imaginávamos a hora em que surgiria um bonde, menos flexível, quando então seria o nosso fim. Surpreendentemente, a manobra foi bem sucedida. Olympia pegou, chegamos são e salvos ao IAPI e retornamos à Tobias inteiros, sem um arranhão sequer.
De outra feita ela se esmerou na armadilha para eliminar todos de uma só vez. Era um sábado de sol e o velho resolveu proporcionar à família a degustação de um café colonial em Morro Reuter. Olympia parecia radiante e feliz, como todos nós. Criaturinha dissimulada...
Partimos por volta das onze da manhã e chegamos sem novidades. Refestelamo-nos com o café colonial, passeamos a pé um pouco pelas redondezas e embarcamos felizes e contentes na Olympia, que nos aguardava com um sorrisinho maroto. Achamos que ela também estava apreciando o passeio. Até que estava, mas não da forma que imaginávamos, como verão a seguir.
Vencido o primeiro obstáculo, isto é, a partida do motor, que excepcionalmente foi normal, o velho afastou-se do estacionamento de ré, engrenou uma primeira e ingressou na estrada, que naqueles tempos se chamava BR-2. Foi esta a última vez que conseguiu movimentar a alavanca de mudança de marcha e o pedal da embreagem. Imaginem isso na descida da serra. Olympia nos obrigou a trazê-la direto a Porto Alegre sem parada, nem em engarrafamento, nem em sinal, nem em nada, sob pena de ficarmos plantados no caminho, aguardando um socorro quase impossível (os celulares ainda estavam sessenta anos no futuro).
E assim viemos, furando barreiras policiais e interdições de meias-pistas, ultrapassando na contramão, jogando carros para o acostamento e varando sinais fechados. Por obra e graça da sorte, chegamos sãos e salvos à nosso porto seguro, à Tobias de Cima. Dava para ver a contrariedade estampada na fisionomia de Olympia. Seu plano perfeito de eliminar toda a família não podia ter dado errado. Da próxima vez, ela não falharia.
Mas não haveria uma próxima vez. Depois de gastar mundos e fundos recuperando Olympia; de deixá-la como nova, meu pai convidou minha mãe para irem ao Cinema Baltimore. Era aniversário de casamento deles, e o programa incluía cinema e um jantar a dois. Ele foi com seu melhor terno de linho branco, pois fazia calor. Na saída do Baltimore, quando entrava no carro, descobriu um pneu vazio. Tirou o paletó, pegou o macaco no porta-malas, improvisou algo para entrar embaixo do carro sem se sujar e foi ai que Olympia resolveu se vingar.
Começou por esconder o encaixe do macaco, uma coisinha que mais parecia peça de playmobil. Como se isso não bastasse, ela providenciou um vazamento de óleo exatamente sobre os olhos do velho, que escorria depois para a camisa de casimira. Para encurtar essa já longa história, basta dizer que no dia seguinte o velho a levou embora para nunca mais.
Ford 1939
Trocou-a por um Ford 4 portas 1939, cor cinza. Levou-me com ele na Rua Laurindo, onde ficava a revenda. Sentamos lado a lado no banco da frente. A primeira coisa que ele fez, ainda dentro da loja, foi ligar a chave e apertar um botãozinho que havia no painel, o botão de arranque. Ato contínuo, o motor de oito cilindros em V pegou com um estrondo possante. Em meio ao barulho, que reverberava nas paredes da revenda, e do cheiro forte de gasolina, virou-se para mim e sorrindo feliz disse: ― Viu, este pega!
Autor: CARLOS ARI